A LENDA DO POVO PACÍFICO

O Brasil foi um dos últimos países do mundo a extinguir a escravidão. Também foi palco de um longo regime de exceção, bem como de dezenas de conflitos, revoltas e guerras. A cultura é a de violência. E ela é endêmica. Desde 1500. A eterna propaganda de povo pacífico, amplamente difundida do Oiapoque ao Chuí, não passa de uma lenda. Somos um povo sanguinolento por natureza.

Um país onde o Ministério Público precisa fazer campanha para conscientizar as pessoas a contarem até 10, antes de cometerem um crime. Um país onde os estádios de futebol, lugares de alegria e festa, transformaram-se em arenas medievais com seus gladiadores travestidos de torcedores praticando todos os tipos de atrocidades. Um país onde há decapitações, esquartejamentos, torturas e execuções sumárias nas favelas, produzidas pelo reino ininterrupto do tráfico de drogas. Um país onde a internet é um faroeste de intolerância, preconceito e agressividade gratuita. Um país onde o Direito Penal seletivo encarcera em massa a pobreza, onde a execução penal funciona apenas com finalidade vingativa em suas masmorras sombrias e onde o processo penal privilegia o poder econômico e financeiro.  As diversas faces da violência também estão presentes nas polícias que se encontram completamente despreparadas e desvalorizadas, bem como nas Defensorias Públicas abandonadas pelo Estado e preteridas em sua nobre missão constitucional. Enfim, a violência está em todos os lugares, de todas as formas, a todo o momento. O que revela uma sociedade profundamente adoecida.

Ademais, é necessário frisar que o adoecimento da sociedade tupiniquim é oriundo de suas próprias atitudes. O sonho de uma pátria verdadeiramente pacífica começa pelo reconhecimento da agonizante história de dor da pobre e combalida população brasileira e não pela negação da violência alicerçada na falácia do pacifismo. Uma sociedade eternamente deitada em berço esplêndido, que nega peremptoriamente sua característica violenta e dotada de uma doença crônica chamada letargia social não conseguirá propor debates, fomentar a vontade política e catalisar o comprometimento social. O jeitinho malandro de ser, o bordão “deixa a vida me levar”, a santíssima trindade representada pelo samba, carnaval e futebol, bem como a ideia equivocada de país pacífico são fatores determinantes para a prisão eterna da sociedade nesse cotidiano insalubre, perigoso e contagioso.

Enquanto não se acorda para a realidade, o oceano da injustiça continua banhando com sangue o chão de terrae brasilis. A segurança pública e os direitos humanos precisam ser prioridade no país. Não podem ser esquecidos, preteridos, escanteados. A negligência contumaz no debate, na proposição séria de ideias e na efetivação de políticas públicas de qualidade estanca o desenvolvimento nacional. A verdade, nua e crua, é que a República urge ser pacificada. Em todos os sentidos.

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